segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Lucinda


Avó

São 18H de dia 28 de novembro de 2017, o motorista rasgou o bilhete do autocarro nr 51 lugar nr 7, para ir ver onde vais estar quando precisar de ti. Tenho agora perto de 4 horas e meia de viagem, para me lembrar de 40 anos que me acompanhaste. reparo agora que sempre fizeste parte da minha vida, tenho memórias de ti desde que era pequeno. Tenho agora 4h30m para pensar qual vai ser a sensação de chegar a casa e não ouvir a frase "és tu filho, és tu Hugo? A tua mãe disse que vinhas", vindo do quarto do lado direito quando se entra em casa, também da última videochamada que te coloquei uma data de efeitos que atualmente é permitido, também quando te ia levar o almoço e torcias o nariz, eras como um bebé, agora por um tempo era eu que tomava conta de ti, assim como quando eu era pequeno tu cuidavas de mim. Lembro-me também da alegria que foi quando TU já muito debilitada em 2004, eu fui colocar a minha filha junto a ti. Tenho agora 4h30m para sentir o que não senti durante o dia de hoje, no trabalho, pois não pude chorar no trabalho quando às 8h 40m soube da notícia da tua última viagem. Porquê? Porque os homens não choram. Sei que não sabias ler, e que também não vais ler este texto e se eu acreditasse era fácil, pensava que ias aqui ao meu lado e que por alguma magia tivesses aprendido a ler estas palavras que escrevo, é que enquanto escrevo, posso chorar à vontade,  aqui no lugar nr 7 do autocarro 51 as luzes estão apagadas, e se me perguntassem posso sempre dizer que é da luz do telemóvel, onde estou a escrever.
Nestas 4h30m sei que me vai passar muita coisa pela cabeça, tanta que não sei se vou ter tempo de as escrever.
Posso escrever que um dia falamos de tudo e de nada, que disseste que ias partir, e eu disse que não, que ainda ias ter de conhecer bisnetos, e quiçá trinetos o que eu no fundo queria era uma avó eterna...
O que eu não posso escrever nestas 4h30m é que amanhã quando me despedir de ti é o que vou sentir quando não te ouvir dizer QUE É A ÚLTIMA VEZ QUE ME VAIS VER... porque isso já me disseste... E aconteceu. A única coisa que eu sei é que te vou lá deixar sozinha...